Contribuição: Prof. Mauro Velhote
"Os Patos Preferem a Escola
FERNANDA TORRINHA | DULCE BENTO
No tempo em que os animais falavam, os bichos constataram que o meio em que viviam começava a tornar-se cada vez mais complexo e havia que impor novas hierarquias, estabelecer novos parâmetros de comportamento, uma vez que já não chegavam os seus instintos inatos para enfrentar as modificações do meio. Esta necessidade deu lugar à ideia de ESCOLA: uma estrutura social, que os habilitaria, A TODOS, para enfrentar as crescentes modificações a que assistiam. Foram escolhidos os melhores animais para a docência, isto é, os reconhecidos como mais experientes, alta profissionalização nos seus domínios específicos, grandes títulos em competições. O reconhecimento destas qualificações envaideceu-os, naturalmente, e a maioria esqueceu, desde logo, a razão por que estava ali. Com muitas reuniões gerais de professores, muitas reuniões de grupo, reuniões de conselho pedagógico, de departamentos, de secções, reuniões de conselho directivo, etc., escolheram o seguinte currículo: nadar, correr, voar, galgar montes e saltar obstáculos.
Os primeiros alunos foram o cisne, o pato, o coelho e o gato. Começadas as aulas, cada professor, altamente preocupado com a sua disciplina, preparava primorosamente a matéria, dava-a sem perder tempo, procurando cumprir o programa e a planificação do
mesmo. Faziam, assim, jus aos seus títulos e competências. Mas os alunos iam-se desencantando com a tão sonhada escola. Vejam o caso particular de cada aluno:
- O cisne, nas aulas de correr, voar e galgar montes era um péssimo aluno. E mesmo quando se
esforçava, ao ponto de ficar com as patas ensanguentadas das corridas e calos nas asas, adquiridos na ânsia de voar, tinha notas más. O pior era que, com o esforço e o desgaste psicológico dispendido nessas disciplinas, estava a enfraquecer na natação, em que era exímio.
- O coelho, por sua vez, padecia nas matérias de nadar e voar. Como poderia voar, se não tinha asas?
Em se tratando de nadar, a coisa também não era fácil, não tinha nascido para aquilo. Em contrapartida, ninguém melhor do que ele, corria e galgava montes.
- O gato tinha problemas idênticos aos do coelho, nas disciplinas de natação e voo. Ele bem insistia com o professor que, se o deixasse voar de cima para baixo, ainda poderia ter algum êxito. Só que o professor não aceitava essa ideia louca: não estava contemplada no programa aprovado e o critério de selecção era igual para todos.
- O pato, finalmente, voava um pouquinho, corria mais ou menos, nadava bem, mas muito pior que o cisne, e desastradamente, embora com algum desembaraço, até conseguia subir montes e saltar obstáculos.
Não tinha reprovações em nenhuma disciplina, como os seus restantes colegas, o que o fazia sumamente brilhante nas pautas finais. Os professores consideraram-no o aluno mais equilibrado, deram-lhe a possibilidade de prosseguir estudos e, com tantos «atributos», até fomentaram nele a esperança de, um dia, poder vir a ser professor.
Os restantes alunos estavam inconformados, nada tinham contra o pato, gostavam dele,
compreendiam o seu grau mínimo de suficiência em todas as disciplinas, mas, então, perguntavam-se: a espantosa capacidade do coelho em saltar obstáculos, correr e galgar montes não poderia ser aproveitada para enfrentar as tais novas situações sociais, que os levaram a ter a ideia de ESCOLA? E o gato? De nada lhe serviria também correr e saltar melhor que o pato? E que utilidade teria, para o cisne, nadar como nenhum outro? - Cada um tinha, de facto, a sua queixa justificada. Escola, pensavam eles, era o local onde aperfeiçoariam as capacidades que tinham, de modo a pô-las ao serviço da sociedade. Se as coisas já estavam
difíceis, que fazer agora com a tremenda frustração de que não serviam para nada?
Foram falar com os professores. As limitações de cada um eram um facto, eles sabiam que jamais seriam polivalentes, de modo a terem grandes escolhas. Contudo, se reprovassem, no ano seguinte estariam exatamente na mesma situação.
Os professores lamentaram muito. Tinham de se esforçar. Havia um programa, Superiormente
estabelecido, e a questão era só esta: ninguém tinha média igual à do pato e, por isso, na sua mediocridade, ele era, estatisticamente superior a todos.
Os outros alunos abandonaram a escola. Desde então, por razões óbvias, a escola atrai mais os patos e, na sociedade, são eles que dominam."
2 comentários:
Recebo este seu email no meio de correção de relatórios...relatórios que traduzem o caminhar de cada aluno, o jeito de cada um "voar", "galopar", "nadar"..relatórios que falam de nossos patos, cisnes, beija-flores,gaviões,cagurus, girafas......
Tenho certeza de que, pelo menos aqui nos Batutinhas, fazemos questão de abrir todas as linguagens... os professores extras com suas paixões específicas garantem espaço para artistas, músicos, biólogos, atletas... as professoras cada vez melhor formadas, fazem malabarismos para garantir a descoberta do mundo em projetos diversificados e ricos em teatros, fantasias e muitas brincadeiras...
talvez o texto esteja se referindo às escolas mais antigas que ainda se apoiam exclusivamente na antecipação de conteúdos e na memória mecânica.
talvez queira "denunciar" espaços de educação que desconsiderem as diversas inteligências, a construção do sujeito afetivo e feliz, a vida em grupo saudável e respeitosa das diferenças e das variadas competências...
ainda bem, que os grandes movimentos da Educação Infantil na atualidade se apoiam em Reggio Emilia e suas 100 Linguagens... que nós nunca nos esqueçamos das 99...
Mando a poesia de Malaguzzi para elevar nosso espírito tão perto do Natal...
” A criança é feita de cem.
A criança tem cem mãos,
cem pensamentos, cem modos de pensar, de jogar e de falar.
Cem, sempre cem modos de escutar as maravilhas de amar.
Cem alegrias para cantar e compreender.
Cem mundos para descobrir.
Cem mundos para inventar.
Cem mundos para sonhar.
A criança tem cem linguagens (e depois, cem, cem, cem), mas roubaram-lhe noventa e nove. A escola e a cultura separam-lhe a cabeça do corpo.
Dizem-lhe: de pensar sem as mãos, de fazer sem a cabeça, de escutar e de não falar, de compreender sem alegrias, de amar e maravilhar-se só na Páscoa e no Natal.
Dizem-lhe: de descobrir o mundo que já existe
e de cem, roubaram-lhe noventa e nove.
Dizem-lhe: que o jogo e o trabalho,
a realidade e a fantasia,
a ciência e a imaginação,
o céu e a terra,
a razão e o sonho,
são coisas que não estão juntas.
Dizem-lhe: que as cem não existem.
A criança diz: ao contrário, as cem existem. "
Nós aqui nos Batutinhas, fazemos nossas as palavras de Malaguzzi - AS CEM EXISTEM!!!
beijos Bella
Ótimo texto. Excelente metáfora para a realidade da Educação no país, onde o currículo, na prática, prioriza habilidades e conteúdos específicos. Acho, inclusive, que ele complementa a discussão trazida pelo último vídeo postado no blog.
Me fez pensar também em um artigo que li recentemente sobre o empresário inglês Richard Branson. Depois de ser reprovado três vezes em matemática, ele abandonou a escola aos 16 anos. O ex-aluno “problema” dedicou-se aos negócios e virou um empreendedor de enorme sucesso. Dono do grupo Virgin, faturou 3,8 bilhões de libras em 2010.
Continue compartilhando.
Bjs
Ana Luiza
Postar um comentário