
Neste momento, estamos todos debruçados sobre relatórios... Nosso texto vai varar a alma do professor e revelar a dos alunos. Dá medo, dá angústia, que responsabilidade!
Vamos compartilhar experiências, juntas tiramos melhores retratos . O que inspira você? Onde encontra a melhor palavra para o seu aluno? Leia e depois deixe aqui alguma contribuição.
Bella
"Toda palavra é composta
Eu aprendi a escrever para deixar gravado o tamanho do meu desejo, a minha dúvida, do meu medo. Escrever é jamais poder negar o pensado. Escrever é afirmar – novamente me contei – que a incompletude nos aproxima por nos revelar que o humano é um ser de relações.
Lendo, ainda na escola, descobri que dentro das palavras moram histórias. Também elas não suportam a solidão e vivem uma para as outras. Cada palavra é uma frase, além de ser uma oração. E, por muitas vezes, a palavra me pedia para lhe desamarrar o que andava aprisionado. Uma palavra é capaz de desenrolar uma conversa. Escrever me pareceu também um jogo. Escrever é, de repente, se espantar ao descobrir que também as palavras falam. E eu, menino, brincava de libertar: (...)Nenhuma palavra vive sozinha. Toda palavra é composta. Se escrevo mar, nessa palavra rolam ondas, viajam barcos, cantam sereias, brilham estrelas, algas, conchas e outras praias. Se digo pai, é aquele que me ama ou aquele que não conheci ou aquele, ainda, que me abandonou. Toda palavra brinca de esconder outras palavras. Quando se lê uma palavra, o coração escreve mais outras. Escrever é escutar a palavra e registrar o que ela nos pede. É a palavra que nos inscreve."
Bartolomeu de Campos. Para ler em silêncio. SP: Moderna, 2007
8 comentários:
Para o poeta João Cabral, temos fome da palavra exata. Boa busca de palavras para todas nas próximas semanas!
Lendo esse texto lembrei de um livro de poesias "Brincriar" de Dilan Camargo que é uma dirvertida brincadeira com as palavras.
Uma ótima literatura infantil.
Carolina Binz
O que diria Bartolomeu de Campos se visse, como nós professores vemos, as primeiras palavras de uma criança sendo registradas no papel? É um privilégio apreciar o encantamento mágico de quem se descobre escritor, dono das próprias palavras.h
Ao som dos meus discos de jazz, sinto que as palavras chegam naturalmente. Elas navegam no mar de pensamentos, sentimentos, desejos! Emergem do fundo da alma, são minhas!
Escrever é um ato de liberdade, revela a identidade, demonstra coragem! Escrever é antes de mais nada um ato de bondade, com o que de verdade somos por dentro!
Sempre me vi muito preocupada quando me arriscava em minhas tentativas de escrever um livro. Assombravam-me todas essas outras palavras que se escondem naquelas que eu escolhia. "- Será que se eu escrever isso, as pessoas vão entender o que eu quis dizer?" Escrever, é sem dúvida, um ato de coragem, porque o que se escreve não se corrige, não se apaga, não se emenda com desculpas ou retificações como aquilo que se fala... Escrever é dar um ponto de partida para que os outros se inspirem e sonhem.
UAU!!! fico sempre impressionada com as poetas que se escondem em vocês...
Mariuza, esta dica do Jazz como fundo inspirador é tudo de bom...
Ms. Gabi, que livro é esse?? MOSTRA pra gente!!
Bella, clicando no meu nome, acima do comentário, você vê meu perfil e os links do meus dois blogs. Lá vocês poderão ler alguns dos meus textos.
Beijos!
Mariúza, adorei.
Gabi, que depoimento inspirador. Parabéns! Visitarei seus blogs, muito em breve.
O que me inspira na escrita dos relatórios?
Começo a escrever sobre uma criança muito antes de colocar minhas digitais nas teclas do computador, para registrar palavras na tela-papel.
Começo a escrever com o olho. Apesar de tentar fisgar minhas crianças com o olhar durante todo o semestre, quando a escrita se traveste de necessidade, o olho-escritor surge, como um caçador de palavras e um fotógrafo de imagens significativas. É a fome da palavra exata que sinto, sim, como nos falou João Cabral, citado pela Ana. Mesmo acreditando que essa exatidão é como o horizonte. É a ideia da clareza que me norteia, por isso dentro dos equívocos da linguagem, busco transmitir as ideias "o mais claramente que consigo".
Depois do olhar, rabisco frases, palavras e comentários em todo e qualquer papelzinho que mora no bolso do meu avental batuta. É quase uma coleção.
Depois me pego escrevendo, mentalmente, orações completas. Às vezes, sorrio, como quem faz bingo, lendo o que pensa.
Enquanto isso, vou comendo livros. Principalmente, poesia - que adoro.
Preciso ler a palavra-poeta que abre os pensamentos, a palavra inexata destinada às ambiguidades como entrada. Esse primeiro prato me nutre na busca das palavras menos dúbias, que delimitam minhas avaliações sobre cada criança.
Comecei a ler dois livros esta semana. Nada casual... Para abrir o apetite de escritora, valem também bons filmes, água de coco na praia e ver Toy Story com meu filho, paquerando a maneira admirável como aquele menino Andy brinca com a sua turma.
É isso... pra começar.
Beijo de enlaçar.
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