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sexta-feira, 6 de maio de 2011

Reflexão Teórica - maio de 2011: "E você, sabe elogiar seu aluno?"





Elogie do Jeito Certo




Por Marcos Meier*

"Recentemente um grupo de crianças pequenas passou por um teste muito interessante. Psicólogos propuseram uma tarefa de média dificuldade, mas que as crianças executariam sem grandes problemas. Todas conseguiram terminar a tarefa depois de certo tempo. Em seguida, foram divididas em dois grupos.

O grupo A foi elogiado quanto à inteligência. “Uau, como você é inteligente!”, “Que esperta que você é!”, “Menino, que orgulho de ver o quanto você é genial!” ... e outros elogios à capacidade de cada criança.

O grupo B foi elogiado quanto ao esforço. “Menina, gostei de ver o quanto você se dedicou na tarefa!”, “Menino, que legal ter visto seu esforço!”, “Uau, que persistência você mostrou. Tentou, tentou, até conseguir, muito bem!” ... e outros elogios relacionados ao trabalho realizado e não à criança em si.

Depois dessa fase, uma nova tarefa de dificuldade equivalente à primeira foi proposta aos dois grupos de crianças. Elas não eram obrigadas a cumprir a tarefa, podiam escolher se queriam ou não, sem qualquer tipo de consequência.

As respostas das crianças surpreenderam. A grande maioria das crianças do grupo A simplesmente recusou a segunda tarefa. As crianças não queriam nem tentar. Por outro lado, quase todas as crianças do grupo B aceitaram tentar. Não recusaram a nova tarefa.
A explicação é simples e nos ajuda a compreender como elogiar nossos filhos e nossos alunos. O ser humano foge de experiências que possam ser desagradáveis. As crianças “inteligentes” não querem o sentimento de frustração de não conseguir realizar uma tarefa, pois isso pode modificar a imagem que os adultos têm delas. “Se eu não conseguir, eles não vão mais dizer que sou inteligente”. As “esforçadas” não ficam com medo de tentar, pois mesmo que não consigam é o esforço que será elogiado. Nós sabemos de muitos casos de jovens considerados inteligentes não passarem no vestibular, enquanto aqueles jovens “médios” obterem a vitória. Os inteligentes confiaram demais em sua capacidade e deixaram de se preparar adequadamente. Os outros sabiam que se não tivessem um excelente preparo não seriam aprovados e, justamente por isso, estudaram mais, resolveram mais exercícios, leram e se aprofundaram melhor em cada uma das disciplinas.

No entanto, isso não é tudo. Além dos conteúdos escolares, nossos filhos precisam aprender valores, princípios e ética. Precisam respeitar as diferenças, lutar contra o preconceito, adquirir hábitos saudáveis e construir amizades sólidas. Não se consegue nada disso por meio de elogios frágeis, focados no ego de cada um. É preciso que sejam incentivados constantemente a agir assim. Isso se faz com elogios, feedbacks e incentivos ao comportamento esperado.

Nossos filhos precisam ouvir frases como: “Que bom que você o ajudou, você tem um bom coração”, “parabéns meu filho por ter dito a verdade apesar de estar com medo... você é ético”, “filha, fiquei orgulhoso de você ter dado atenção àquela menina nova ao invés de tê-la excluído como algumas colegas fizeram... você é solidária”, “isso mesmo filho, deixar seu primo brincar com seu video game foi muito legal, você é um bom amigo”. Elogios desse tipo estão fundamentados em ações reais e reforçam o comportamento da criança que tenderá a repeti-los. Isso não é “tática” paterna, é incentivo real.

Por outro lado, elogiar superficialidades é uma tendência atual. “Que linda você é, amor”, “acho você muito esperto, meu filho”, “Como você é charmoso”, “que cabelo lindo”, “seus olhos são tão bonitos”. Elogios como esses não estão baseados em fatos, nem em comportamentos, nem em atitudes. São apenas impressões e interpretações dos adultos. Em breve, crianças como essas estarão fazendo chantagens emocionais, birras, manhas e “charminhos”. Quando adultos, não terão desenvolvido resistência à frustração e a fragilidade emocional estará presente.

Homens e mulheres de personalidade forte e saudável são como carvalhos que crescem nas encostas de montanhas. Os ventos não os derrubam, pois cresceram na presença deles. São frondosos, copas grandes e o verde de suas folhas mostra vigor, pois se alimentaram da terra fértil.

Que nossos filhos recebam o vento e a terra adubada por nossa postura firme e carinhosa."


* Marcos Meier é psicólogo, professor de Matemática e mestre em Educação. Especialista na teoria da Modificabilidade Estrutural Cognitiva de Reuven Feuerstein, em Israel. Também conhecida como teoria da Mediação da Aprendizagem

12 comentários:

Mariuza disse...

Esse texto me fez lembrar muito da minha vida escolar. Sempre fui muito esforçada, mas tinha inúmeras dificuldades em detrminadas matérias exatas. Nunca, jamais, nenhum professor elogiou o meu empenho, que não era pequeno! O que me salvou foi ter uma família que acreditava no meu potencial e nunca, jamais, comparou meu desempenho com o do meu irmão, primeiro aluno em tudo!
Atualmente e infelizmente, vivemos em uma sociedade de consumo em que o ter é mais importante do que o ser, em que tudo gira em torno das aparências.
Lendo esse texto, comparo o ter, verbo que se refere ao imediatismo, com a inteligência, que aparece rapidamente nos resultados do aluno. E o ser, seria como o esforço, o empenho, que não aparece rapidamente, pois depende de um tempo maior, depende da credibilidade do professor e da família!
Por isso, acho que o professor tem que estudar mesmo, ler bastante, participar de encontros com outros professores, precisam falar de suas práticas, necessitam dominar o impulso, muitas vezes, de olhar para os alunos com esteriótipos.
O difícil é mudar esse olhar, pois nós também somos fruto desta sociedade que se apresenta!

Marianna Bustamante disse...

Esse texto me faz refletir sobre a minha prática em sala de aula e a minha vida pessoal. Sou desde pequena uma pessoa muito esforçada e assim como a Mariuza também tive dificuldades nas matérias exatas. Sorte que a maioria dos professores que passaram pela minha vida perceberam e incentivaram a minha postura. :)Sempre quis me formar, fazer uma pós e aqui estou!Resultado do meu esforço!Costumo elogiar meus alunos pelo cuidado com os companheiros,respeito pelo outro,por ajudar o amigo, esforço...
Enfim, atitudes que eu acredito que verdadeiramente engrandecem o ser humano!
bjsss Mari B.

Gabi F. disse...

Na minha opinião esse texto é um alerta muito precioso. O reforço positivo é uma das falas mais importantes do professor em sala de aula, mas precisamos sempre nos policiar para não oferecermos ao aluno um "elogio fraco". Além de sempre, além do elogio, oferecermos aos nossos alunos apoio e encorajamento para que eles continuem se esforçando e caminhando passo após passo na estrada do "ser melhor e fazer melhor".

Anônimo disse...

Adorei o texto. "Incentivo não é tática paterna, é incentivo real."
Tenho certeza que esse é o melhor caminho para formarmos crianças educadas, solidárias e éticas.

Luciana disse...

Os elogios são importantes, representam incentivos às crianças, mas devem ser acompanhados de afeto e sinceridade para que tenham algum sentido. Sem dúvida, os elogios aos comportamentos de amizade, solidariedade e respeito ao outro devem ser foco de atenção do educador, como sementes plantadas para que mais sentimentos como estes apareçam nas salas de aulas. Ressalto também a reflexão constante das nossas próprias atitudes com o outro, uma vez que nós, professores ou pais, representamos os modelos mais fortes e carregados de afeto para as nossas crianças.

Cristiana disse...

Muito bom o texto, e me fez pensar na questão dos rótulos, em como rotulamos e somos rotulados o tempo todo: "fulana é tão acelerada", "ciclano é tão devagar". Quando somos crianças e aceitamos o que nossos pais dizem a nosso respeito como verdades absolutas, adquirimos os muitos rótulos que levaremos por toda vida. Lembro que minha mãe dizia que eu era "desatenta", e eu cresci "vestindo" esse esteriótipo. Ao contrário do rótulo, o elogio verdadeiro, honesto constrói pessoas autoconfiantes, fortes e corajosas. Hoje mesmo, disse ao Pedro, meu aluno: "Nossa, Pedro, você é um amigo muito legal! Gostei muito de te ver emprestando o brinquedo ao seu amigo". Mas também já elogiei a menininha que chegou com um lindo penteado. E também acho válido, já que demosntra carinho, atenção, mostra que você reparou no quanto ela quis vir bonita à escola. Mas, indiscutivelmente, a VALIDAÇÃO, importante componente na formação da autoestima, se dá de maneira bem mais consistente quando elogiamos os bons comportamentos.
Beijos,
Cris Dias.

cláudia disse...

Cláudia disse:o texto vem de encontro às minhas reflexões cada dia mais frequentes em função do trabalho de ética e também da minha própria postura pessoal. Acho o elogio fundamental, não o elogio gratuito, corriqueiro, que pretende agradar, mas o elogio que te valoriza, que te faz crescer, que te reconhece.
Como educadoras, mães, profissionais devemos estar atentas a nós mesmas e ao outro, julgar é rápido e fácil,conhecer e reconhecer dá mais trabalho, requer mais atenção, mas sem dúvida constroi, acompanha e incentiva muito mais quem caminha ao nosso lado, seja um filho, um aluno ou um parceiro de trabalho.

Unknown disse...

Achei esse texto muito bom, além de simples e objetivo.
Acredito que o elogio seja fundamental para a construção da auto-estima de todo ser humano. Dessa forma, um elogio bem feito pode mudar até mesmo um comportamento ruim.
De acordo com a Luciana, penso também que o elogio deva ser "autêntico", tanto em relação ao esforço da criança, quanto em relação a sua inteligência. Sobretudo, é necessário evitar aqueles elogios artificiais e nocivos.
Enfim, creio que o elogio se torna "saudável" quando é realizado na dose certa.

Paula disse...

Gostei muito do texto, achei simples mas de uma importancia enorme. Muitas vezes elogiamos para engrandecer o ego ou em cima de superficialidades. Mas um elogia feito de coraçao, de verdades,certamente será produtivo. Temos que estar constantementes atentas a observar e apontar as qualidades reais do ser humano, como a humildade, paciencia, persistencia e por ai vai...

Rê Jambo disse...

Adorei o texto!! Esse texto me fez recordar a minha infância também, assim como quase todas as meninas acima. Era extremamente tímida e muito “cobrada” para me expor nos grupos e rodas. Mais tarde, conscientemente, procurei por vontade própria um curso de teatro e isso me ajudou bastante. Sempre fui muito esforçada e corri atrás de tudo que desejava, e até hoje sou assim. O elogio é uma ferramenta fundamental na vida do ser humano. Hoje, com as “faltas” e “ausências” de olhar, carinho, tempo...As pessoas usam o consumismo, como disse a Mariuza, para suprir essas “faltas”. Devemos mostrar agrado, apreço, satisfação, à pessoa que é alvo do nosso elogio. Porém, talvez valha a pena refletir sobre algumas características que devem acompanhar o elogio, para que possamos rentabilizar os seus efeitos positivos, pois assim o seu valor como reforço será mais intenso (um elogio fornecido antes do comportamento acontecer, ou muito tempo após a sua ocorrência, não tem o efeito de reforço que pretendemos). Assim, o elogio, fornecido de forma oportuna e adequada, pode ser um instrumento fundamental para o educador otimista, no sentido de assegurar a promoção da auto-estima e o reforço dos talentos das nossas crianças!

Mônica disse...

Um elogio real: excelente a escolha desse texto - objetivo, claro e até poético no final - que me fez pensar e avaliar atitudes. Outro mais: obrigada, companheiras batutas, pela generosidade na partilha de experiências enriquecedoras. Com vocês, aprendo, constantemente.

Soraya disse...

Texto maravilhoso ! Elogiar é saber olhar além da forma... É olhar através... É olhar o melhor...É olhar a essência do outro...
Soraya